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Retrato de sala de aula

No meu dia-a-dia em sala de aula vivencio muitas coisas. Como trabalho com crianças de 6 anos é enriquecedor acompanhá-las  em seu primeiro dia de aula: apreensivas, curiosas, assustadas e chorando muito, com medo do que virá pela frente.
No outro lado, pais não menos apreensivos, assustados e chorosos, tendo que “abandonar” seu filho na escola, sozinho e desprotegido.
Todos nós que somos pais passamos por isso. Uma mistura de sentimentos, medo, ansiedade e orgulho, afinal, nosso filho cresceu e está dando seus primeiros passos rumo a tal independência (que medo).
Inicio o ano letivo. Todas as crianças com seus lindos materiais escolares, caixa de lápis de cor, borracha e lápis com seus heróis estampados. As famosas mochilas de rodinha cheias de cadernos, tudo cheirando a novo e pronto para ser usado.
 Costumo acolher meus alunos em seu primeiro dia com atividades agradáveis e de fácil realização. Aproveito para traçar um diagnóstico da turma e detectar o nível em que as mesmas se encontram.  A partir destes dados começo com os conteúdos propriamente ditos.
Depois de alguns anos em sala desenvolvi uma percepção grande em relação às crianças e meu olhar já se volta para aquelas que não estão conseguindo acompanhar o restante do grupo. As atividades ficam incompletas, não param quietas em sua carteira, parecem distantes e desestimuladas, algumas parecem que não tem força para se mexer, apáticas e sem aquele brilho no olhar.
Sinal vermelho, algo começa a dar errado. É preciso conversar com os pais e verificar o que está acontecendo. Talvez a criança esteja dormindo muito tarde, alimentando-se mal, necessitando de uma ajudinha em casa para conseguir acompanhar as outras crianças.
Nada muda, a apatia persiste e as atividades continuam incompletas. A desorganização parece só aumentar. Novo contato com os pais, que parecem não admitir que algo está errado. Os colegas de sala vão avançando, as letras vão sendo descobertas e um novo mundo se descortinando somente para alguns.
Aquela criança parece não se desenvolver e a cada dia fica mais perceptível sua dificuldade. Os colegas já não a querem para brincar, pois a mesma está sempre atrasada e não sabe responder as perguntas da professora. Inicia um processo de exclusão natural, onde os mais fortes dominam a situação.
Novo contato com os pais. Explico o que acontece e sugiro uma avaliação médica a fim de minimizar a angústia de todos e descartar qualquer problema neurológico. Novamente vem a negação: “Meu filho não tem nada”. E as dificuldades continuam...
Finalmente, depois de muitas idas e vindas, bilhetes enviados, noites sem dormir, a criança vai ao médico: Diagnóstico de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade). Remédio prescrito, criança medicada. Tudo parece bem, a criança consegue concluir as atividades, está mais caprichosa, sua letra, organização e socialização melhoraram. Dou início ao resgate do conteúdo através de atividades paralelas.
O tempo passa e a medicação vai sendo esquecida. Um dia toma, dois dias não toma. Começa a recaída e um novo contato com os pais é feito.
Vem a resposta: “Não vou mais medicar meu filho, ele é muito novinho e vai ficar viciado. Minha vizinha disse que sou maluca de dopar uma criança e que a culpa é da escola que não sabe ensinar”.
Só me resta como professora torcer pela criança, que afinal não tem culpa de ter nascido com TDAH. Infelizmente não posso mudar os pais e tenho que conviver com relatos como este o ano inteiro.
Para ilustrar esta minha fala gostaria de compartilhar com vocês o desenho de uma aluna. Seu nome é Beatriz. Os nomes das outras crianças foram retirados, por questões lógicas. Observem que neste desenho a aluna retrata uma situação real, onde a criança M está alheia, sentada no canto da sala observando uma borboleta. Esta criança em questão tem o diagnóstico de TDAH e os pais resolveram não medicar.
O desenho fala por si.


                                   
 Escrito por Leila Bambino (professora)
                                 leilabam@terra.com.br

1 comentários:

Rosangela Lucineia Scheuer Vali disse...

Olá Leila!
Sua postagem sobre sua experiência e realidade com as crianças me fez reportar a professores e alunos com essas angústias, inquietações,...
Poder nós temos de observar, dialogar com a família, encaminhar e esperar.
Penso que precisamos ter mais argumentos com provas concretas para ilustrar cada caso, como: matérias científicas, trabalhos dos alunos que comprovem evolução e comprovação de melhores resultados pós-medicação. Reunião com pais e apresentar depoimentos de pais que precisam e aplicam a medicação para seus filhos. Seria uma reunião de sensibilização. Levar um especialista no assunto relatando os benefícios da medicação.Que nada está perdido...ao contrário, só há ganhos.
Enfim...as famílias são resistentes..mas temos que tentar sempre. vale fazer algo...se não der...a escola da vida vai ensinar...infelizmente.
Um abraço, Rosangela - FELIZ 2012!

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